Apresentação da Análise Fundamentalista

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A análise fundamentalista está embasada no conceito de que os investidores têm a capacidade de utilizar as informações financeiras históricas de maneira a elaborarem estratégias de investimentos lucrativos para o futuro. Segundo Joseph Piotroski, a análise está focada na avaliação qualitativa da empresa, do panorama setorial em que está inserida e da conjuntura macroeconômica. Tem como alicerce a análise de três fatores: análise da empresa (Microeconômica), análise do setor em que a empresa está inserida e a análise geral da economia (Macroeconômica), passando pela análise retrospectiva de suas demonstrações financeiras e estabelecendo previsões para o seu desempenho. É essencial que estes três fatores sejam analisados para fundamentar as decisões sobre quais papéis devem ser comprados ou vendidos e estimar a tendência geral do mercado e da economia.

Ela avalia o respaldo financeiro da empresa, a evolução dos lucros, do valor patrimonial, do seu endividamento, dentre outros aspectos que informam a saúde financeira da empresa, a eficiência na utilização dos recursos, seus pontos fortes e fracos, além de possibilitar a projeção de possíveis resultados futuros, tendências e perspectivas, e avaliar o preço atual dos ativos. Para isso faz-se necessário uma interpretação dos fundamentos, ou seja, dos dados de seus resultados financeiros e de seu histórico de balanços e dos fatores macro e microeconômicos que influenciam no seu desempenho e no seu setor de atuação, dando suporte à tomada de decisão do investidor.

Os Balanços Patrimoniais apresentam a situação patrimonial da empresa em dado momento e as Demonstrações do Resultado do Exercício mostram os resultados que a empresa alcançou em cada exercício. A análise dos balanços visa relatar, com base nas informações contábeis fornecidas pela empresa, a sua posição econômico-financeira atual, as causas que determinaram a evolução e o desempenho apresentados, bem como a sua tendência futura. Em suma, a análise fundamentalista permite ao investidor visualizar a performance da empresa no passado, a situação presente, além de extrair informações que subsidiam projeções futuras dos seus indicadores.

Estudando os fundamentos podemos identificar as empresas que apresentam as maiores taxa de crescimento de seus lucros e de seus patrimônios, as maiores pagadoras de dividendos, sem contar as empresas cujas ações estão subavaliadas pelo mercado e que possuem grandes perspectivas no longo prazo, bem como aquelas que estão sobreavaliadas, indicando possivelmente um bom momento sua venda. Entende-se que uma determinada ação apresenta um bom desempenho no mercado até determinado ponto. Em algum momento ela deixará de ser atraente e seu valor de mercado depreciará.

“O investimento em conhecimento é aquele que traz os maiores retornos”.

Benjamin Franklin

É perfeitamente possível associar a escola fundamentalista à escola grafista ou do preço, usando uma análise baseada nos múltiplos para escolher as melhores empresas e identificar momentos de entrada e de saída através da análise gráfica. No momento de montar a sua estratégia de investimento experimente combinar as duas análises. O primeiro passo é, através da análise fundamentalista, selecionar as empresas mais atrativas, que vêm crescendo ao longo do tempo e que, a princípio, não apresentam grandes riscos financeiros. Posteriormente, através da análise técnica você obterá um histórico da tendência do preço desses ativos, determinará seu preço alvo (objetivo de rentabilidade) e seu preço stop (limite de perda) de acordo com seu perfil.

Para isso, é essencial estar de posse da informação necessária, correta e séria no tempo hábil e, além disso, possuir o conhecimento e a capacidade de analisar esses dados. Embora as informações usadas como base sejam todas públicas, saber analisar esses dados leva não só à identificação de bons negócios para o investidor, como também à descoberta do que o mercado não está precificando.

A análise fundamentalista faz uma avaliação da empresa orientando-se pelo conjunto de dados econômicos e financeiros, divulgados através de balanços trimestrais e por outras informações relevantes, complementada por uma análise gerencial e mercadológica da empresa. Normalmente isso é feito a partir de séries históricas desses dados, complementadas com hipóteses formuladas para o futuro, projeções de resultados esperados que determinarão a decisão de compra ou de venda da ação.

É um trabalho individualizado e especializado que, de uma maneira geral, tende a ser muito mais trabalhoso e complexo do que a análise gráfica. É difícil encontrar uma maneira simples de analisar os fundamentos e aplicá-los à tomada de decisão, a menos que você tenha experiência em finanças e contabilidade. Ao ler os relatórios trimestrais elaborados por contadores e analistas, facilmente se perde o foco ou se confunde, dado a vasta quantidade de informações e forma complicada como são apresentados, o que dificulta a sua aplicação.

Muitas pessoas investem no mercado de ações em empresas que pouco ou nada conhecem, às vezes nem sabem exatamente o que a empresa faz. Seguem estratégias de investimentos baseadas quase que exclusivamente em gráficos de preço, dicas e expectativas, muitas das quais absurdas. A maioria das pessoas com um mínimo de bom senso ao fazerem uma sociedade num negócio procurariam primeiro entender bem o funcionamento desse negócio antes de investir. É preciso estudar as características dos produtos/serviços que esta empresa está vendendo e qual a perspectiva da demanda por eles, como é o seu setor de atuação e a sua concorrência, além comparar este negócio com outros negócios semelhantes.

Nossa proposta é aprimorar a sua habilidade de análise de mercado através de um conteúdo objetivo e uma abordagem prática para a análise dos fundamentos. Buscamos quebrar a resistência que muitos têm em relação a analise fundamentalista, dada sua complexidade e, em muitos casos, em razão da sua “impraticidade”, contribuindo para a formação de investidores mais conscientes e com foco em estratégias sustentáveis de longo prazo.

“A informação mais necessária é sempre a menos disponível”.

Murphy

Portanto, assim como na análise gráfica, objetividade e simplicidade são elementos fundamentais. Saber o que buscar, onde encontrar e como interpretar as informações dos resultados. Nada no estudo da análise fundamentalista é tão complexo ao ponto de não ser possível a assimilação por qualquer investidor. A análise fundamentalista busca, basicamente, avaliar a saúde financeira das empresas, projetar os seus resultados futuros e determinar uma faixa de preço “justo” para as suas ações, além de fornecer alguns indicadores que permitem ao investidor avaliar o quanto suas ações podem gerar em dividendos, em quanto tempo ele pode recuperar o que investiu, dentre outros. Assim, a análise fundamentalista pode fornecer aos investidores uma poderosa ferramenta de comparação entre empresas concorrentes, podendo ajudá-los a definir em qual vale mais a pena investir.

Em suma, propomos a análise retrospectiva dos demonstrativos de resultado da empresa considerando os últimos 3 anos, realizando uma análise vertical e horizontal do seu desempenho histórico e dos índices econômico-financeiros. A partir daí, a análise prospectiva, projetando os resultados e as suas tendências futuras com base no contexto macroeconômico e nas perspectivas setoriais, comparando-a às demais do seu segmento e avaliando o preço de mercado de suas ações e a sua tendência.

Uma característica interessante sobre a análise fundamentalista é o fato de indicar mudanças nos resultados da empresa antes da analise técnica, pois elas são identificadas nos fundamentos antes de serem refletidas nos gráficos das cotações, os quais normalmente nos dizem o que já aconteceu. Além disso, não há nenhuma empresa que possa dissociar a estratégia do negócio face à envolvente macroeconômica. A evolução da inflação, do índice do desemprego, das taxas de juro, do mercado cambial são indicadores que influenciam diretamente na atividade da empresa. E note-se que não são apenas os indicadores do país onde a empresa se insere. Com a globalização, as empresa podem ser afetadas por indicadores de países que se encontram a milhares de quilômetros de distância, ainda que não tenham qualquer relação direta com a empresa.

Os dados para calcular esses indicadores provêm do conjunto de dados econômicos e financeiros da empresa, divulgados através de balanços trimestrais ITR, onde estão detalhados ativos e passivos da empresa e seu valor contábil, dos demonstrativos de resultados por exercício DRE (12 meses), que oferecem as despesas e receitas da empresa, além dos resultados obtidos no período, e por outras informações relevantes, como o relatório anual da empresa, que também fornecem alguns conceitos que os investidores devem conhecer como lucro operacional, dividend yield, margem líquida, patrimônio líquido, receita bruta e assim por diante. Isso é feito a partir de séries históricas desses dados.

“Por algum motivo, as pessoas se baseiam nos preços e não nos valores. Preço é o que você paga, valor é o que você leva”.

Warren Buffett

Há, contudo, uma série de críticas à análise fundamentalista de uma maneira geral. A obtenção de estimativas precisas e confiáveis pode ser difícil em razão das projeções futuras dos indicadores e dos resultados muitas vezes acabarem tornando a análise fundamentalista em algo essencialmente subjetivo. Além disso, haverá sempre a possibilidade de se estar trabalhando com dados “maquiados” divulgados nos ITR’s e DRE’s das empresas analisadas. Tais interpretações são controvérsias e muitas vezes errôneas. Deve-se levar em consideração que esses demonstrativos são elaborados sob a ótica contábil, regulamentada por leis e convenções inerentes ao país onde está situada a empresa analisada, o que pode ocasionar uma avaliação equivocada dos valores reais da empresa e de seu desempenho.

É preciso levar em consideração também o tempo hábil para o uso da informação. Muitas vezes os próprios dados e os indicadores utilizados na análise já estão defasados, principalmente aqueles que dependem do preço de mercado da ação para o seu cálculo. Indicadores como o Dividend Yield, P/L Preço / Lucro, dentre outros, rapidamente se tornam inúteis devido às variações que ocorrem no preço da ação posteriormente à divulgação desses dados. Daí a importância de se utilizar a cotação atualizada para o cálculo desses indicadores, bem como de fontes confiáveis e de credibilidade.

Assim, a principal fragilidade, não só da análise fundamentalista mas de qualquer tipo de análise, é o fato de que não existe a segurança de se ter em mãos todas as informações que importam sobre um ativo para poder analisá-lo, nem de que as informações disponíveis são precisas. Recentemente, diversas empresas como Sadia e Aracruz tiveram perdas bilionárias em seus balanços advindas da irresponsabilidade de seus administradores ao realizarem operações extremamente alavancadas com câmbio. Em nenhum momento, os acionistas foram informados sobre tais operações nem sobre o risco que representavam.

E, ainda que se tenha investido numa excelente empresa, as condições do mercado podem fazer com que suas ações se desvalorizem, e de forma acelerada, dependendo da tendência do mercado ou à reação generalizada a determinados acontecimentos. O mercado fixa o preço de cada ação não necessariamente com base em seu desempenho estatístico passado, mas em função do desempenho futuro esperado, que pode diferir significativamente do seu comportamento passado. Assim, é obrigação dos investidores estudar tanto os investimentos quanto os demais investidores – não apenas sobre a forma que as ações se comportam, mas como os seres humanos que as possuem se comportam. No geral, é durante as fases de pânico generalizado que temos oportunidades de adquirir bons ativos a preços realmente descontados. Já durante as fases de euforia no mercado é mais comum que os ativos estejam caros se comparados aos seus valores intrínsecos ou patrimoniais.

“Quando o barco começar a afundar, não reze. Abandone-o”.

Max Gunther

Contudo, uma decisão de investimento baseada na análise isolada do gráfico de preços não é uma decisão consciente. Não se compra um gráfico, se compra uma ação, uma empresa. O risco de se pagar muito por uma ação ou vendê-la por pouco pode ser reduzido através da análise das informaçãos sobre as empresas, alcançando conclusões acerca do impacto no valor intrínseco das ações. E uma avaliação de qualidade de uma empresa só pode ser feita se compararmos o seu último resultado trimestral com os seus fundamentos históricos. A escolha da empresa na qual investir dentre a vasta gama de empresas de capital aberto dependerá da comparação entre os resultados dessas empresas. É preciso lembrar que a escolha do “que” comprar não é a mais importante, mas sim decidir se irá manter o investimento e, principalmente, se irá vendê-lo.

Neste sentido, reconhece-se a importância do papel da análise fundamentalista como instrumento de quebra de assimetria de informação entre o administrador e os investidores, ou seja, a dificuldade por parte dos investidores de distinguir entre boas e más oportunidades de investimento, o que muitas vezes pode levar a queda da eficiência no funcionamento do mercado de capitais devido à perda de confiança no mercado por parte dos investidores, fruto de escolhas adversas.

Assim, a conjunção da análise técnica com a fundamentalista é a melhor maneira para se obter uma visão geral mais legítima da saúde dos ativos e da tendência da economia e do mercado em geral. O que permite limitar dentro de uma grande variedade de empresas as melhores opções de investimento. Isso possibilita ao investidor desenvolver uma estratégia que filtre as ações de empresas que apresentam resultados ruins, grande endividamento e, acima de tudo, de empresas concordatárias. Talvez a forma mais inteligente para utilizar ambas seja determinar com a análise fundamentalista quais são os ativos que veem apresentando os melhores desempenhos, dos quais se espera o melhor potencial de alta, e, com a análise técnica, buscar os melhores momentos para entrar e para sair do mercado.

A partir de critérios fundamentalistas e técnicos o investidor buscará adquirir ações de empresas saudáveis e com bons indicadores fundamentalistas a preços descontados, montando uma carteira com poucos ativos de diferentes setores. É possível ainda utilizar um modelo que realize uma filtragem setorial dada a conjuntura econômica, abordando parâmetros quantitativos e qualitativos. O mercado sempre determinará o preço. Cabe ao investidor determinar o valor.

“Quando o assunto é ganhar dinheiro, todas as pessoas têm a mesma religião”.

Voltaire