A Manipulação do Mercado

A maioria das pessoas entende o conceito de oferta e demanda em uma economia livre, mas por mais óbvio que pareça, iremos detalhá-lo. Quando a demanda por um determinado ativo aumenta, a sua oferta ao preço em que se encontra diminui. Isso obriga aos que o desejam comprá-lo a preços mais altos. Logo, havendo aumento na demanda e manutenção da oferta haverá aumento do preço de mercado.

Da mesma forma, se há diminuição na demanda e a oferta pelo ativo se mantém isso obrigará àqueles que desejam vendê-lo a aceitarem preços mais baixos. Logo, havendo diminuição na demanda e manutenção da oferta haverá diminuição no preço de mercado.

O que a maioria das pessoas não entende é razão porque os níveis de oferta e demanda no mercado financeiro variam com o passar do tempo. Para isso, deve-se indagar de onde a oferta e a demanda veem.

Nisso os investidores institucionais exercem grande influência.  Às vezes motivados por notícias, outras em razão dos fundamentos macroeconômicos ou das próprias empresas, e outras vezes simplesmente porque querem.

Os investidores institucionais são os maiores participantes do mercado. Em face de seus imensos recursos, da influência de suas recomendações e do alto volume de operações que realizam, pode-se dizer que são eles que fazem com que o mercado aconteça.

As constantes operações que realizam, a maioria por robôs, tendem a guiar a tendência dos preços dos ativos. Se o preço sobe acima ou cai abaixo de um determinado nível, seus computadores automaticamente compram ou vendem ativos no mercado, algumas vezes fazendo o que chamamos de “travar o mercado”. De um grosso modo, investidores institucionais são a demanda e a oferta no mercado, a profecia autorealizável.

Sempre que o mercado sobe ou cai a mídia busca algum motivo que explique este comportamento, ou seja, são as notícias que são adequadas ao momento em que o mercado está passando, ao invés do mercado se adequar às notícias, as quais raramente trazem algum benefício aos investidores, pois são poucos aqueles que conseguem tomar proveito do ocorrido em tempo hábil.

É muito comum que o mercado reaja às notícias antes mesmo que sejam divulgadas. Os investidores institucionais se posicionam no mercado antes que as notícias saiam, tomam vantagem do pânico gerado por elas para manipularem os preços, criar altas e baixas súbitas no intuito de vender caro e comprar barato (opinião contrária). Não é surpresa que isso ocorra nos dias em que se definem indicadores importantes, tal como a taxa anual de juros.

Quando há corte nos juros, o que é bom para o mercado por atrair capital para este, minutos antes do corte os investidores institucionais pressionam brutalmente o mercado para baixo para entrarem comprando a preços baixos no momento em que sai a notícia do corte, pois sabem que o mercado vai subir.

Por outro lado, quando há aumento nos juros, o que é ruim para o mercado pois o capital é atraído para a renda fixa que fica mais atraente, o inverso acontece. Minutos antes de a notícia sair os investidores institucionais colocam o mercado para cima para venderem suas posições aproveitando os preços altos quando a notícia do corte sai.

Algumas vezes, tentar achar uma razão para um determinado movimento de alta ou de baixa pode resultar na perda da oportunidade de agir no momento certo, pois às vezes só se toma conhecimento da razão quando já é tarde demais para poder aproveitá-la.

“Se por um lado você está errado, por outro, está mais errado ainda”.

MercadoReal

A manipulação é um fator inerente a qualquer mercado de renda variável. Quem tem muito capital faz o mercado reagir de acordo com o que quer independente da tendência do preço, e será muito pior quanto menor for a liquidez do ativo. É muito comum que os investidores institucionais, famosos tubarões, travem o mercado, ou mesmo, revertam momentaneamente a sua tendência.

Eles são responsáveis por 2/3 do volume diário de negócios na Bovespa. São eles que fazem o mercado acontecer e garantem a sua liquidez. Estão organizados como grandes fundos de investimento e bancos, os principais são Morgan Stanley, Credit Suisse, Hedding Griffo, UBS Pactual, Merrill Lynch, JP Morgan, Deutsche Bank e Citigroup.

Apesar das movimentações desses fundos serem mascaradas através de ordens invisíveis ou diluídas através de milhares de operações de pequeno volume executadas através de robôs, todo investidor deve procurar acompanhar como os grandes fundos estão agindo no mercado, principalmente as suas posições no índice futuro. Se estão mais comprados do que vendidos, o que pode significar uma expectativa de alta e vice versa, se estão participando do mercado com grandes volumes de dinheiro ou se não possuem interesse no mercado ao nível em que os preços se encontram. Abaixo a lista dos maiores negociadores do dia no ativo VALE5.

No livro de ofertas abaixo vemos o UBS Pactual com uma ordem de venda maciça de 100.000 ações no leilão de VALE5, dificultando que o ativo suba acima de R$ 36,61.

No livro de ofertas abaixo vemos o JP Morgan com uma ordem de compra maciça de 130.000 ações no leilão de PETR4, dificultando que o ativo caia abaixo de R$ 32,90.

A influência pesada dos investidores institucionais no mercado, seja este qual for, é inegável. Entretanto, não se deve seguir a crença de que para que alguém ganhe no mercado será sempre necessário que alguém perca. Essa linha de pensamento vem da suposição de que a economia numa escala macro opera com uma quantidade finita de capital. O que é totalmente incoerente, pois diferente de um jogo de poker, em que o total do capital é a soma do dinheiro de todos os jogadores, empresas e governos criam novos capitais com sua atividade econômica e seu trabalho. E assim, também podem fazer os investidores no mercado. Ressalto que existe a possibilidade, jamais a garantia de se fazer lucro no mercado, diferente do que alguns iniciantes acreditam.

É muito comum na maioria dos finais de ano vermos nos jornais notícias de que a bolsa bateu novo recorde histórico de alta, que o volume de investimento estrangeiro aumentou, que os resultados trimestrais estão superiores aos dos anos anteriores, etc. Tais notícias enchem de esperança um investidor amador e o leva a comprar no exato momento em que deveria estar vendendo (fase de distribuição).

Por outro lado, quando realiza um forte movimento de alta, até que a massa se convença de que o mercado está subindo e isso vire notícia, o mesmo já estará num topo, um excelente momento para se encerrar uma posição comprada e/ou abrir uma posição vendida.

“O jornalismo moderno tem uma coisa a seu favor. Ao nos oferecer a opinião dos deseducados, ele mantém-nos em dia com a ignorância da comunidade”.

Oscar Wilde

Entretanto, há alguns meses atrás quando os papeis estavam negativos no ano, após um forte movimento de queda, não haviam notícias informando que o mercado estava num bom momento de compra. As notícias eram pessimistas e a massa estava com medo de entrar no mercado. Neste momento os grandes investidores estavam comprando para venderem às massas desinformadas no final do ano (fase de acumulação).

Não se deixe enganar pelas notícias de altas nas Bolsas de Valores. Quando essas notícias circulam é sinal de que a bolsa já subiu e, portanto, as possibilidades de novos aumentos nas mesmas proporções são bastante reduzidas. Investidores experientes buscam boas oportunidades de compra em gaps de baixa após notícias ruins e boas oportunidades de venda a descoberto em gaps de alta após notícias boas, têm opinião contrária à da massa.

O iniciante sempre acredita que quanto mais acompanhar as notícias, melhor será seu desempenho e melhor entenderá e acompanhará o mercado. Procura assistir diversos noticiários, ler várias revistas e acompanhar os sites que analisam o mercado. Entretanto, desconhece o melhor indicador do que acontece no mercado, o qual está diante dos olhos de todos, o preço. Sua variação é o reflexo de todos os efeitos das notícias e indicadores econômicos no mercado e, através de sua análise, é possível determinar qual direção mais provável o mercado irá seguir.

“Até que vire notícia, o movimento do mercado já acabou. Compre o boato e venda o fato”.

A ação dos investidores institucionais sobre os preços dos ativos consiste numa série de operações, que em larga escala, são capazes de mudar a tendência do mercado. Algumas vezes realizam centenas de operações de pequeno valor, mas que pelo grande número de operações, compram ou vendem uma grade quantidade de ativos. Outras vezes utilizam ordens de grande valor para travar o mercado, para movê-lo para cima ou para baixo e para marcar fundos e topos.

A falta de participação desses investidores também é um importante indicador. Quando não estão interessados em comprar à medida que os preços sobem, ou em vender à medida que os preços caem, percebemos uma mudança na relação entre a demanda e a oferta indicada na relação entre os preços e o volume, o que sugere que uma reversão está próxima.

Investidores institucionais não controlam totalmente o mercado, mas estão sempre tomando vantagem deste e criando oportunidades para ganharem dinheiro. Quando o momento é apropriado, mesmo que temporariamente, eles irão colocar um mercado em tendência de baixa para cima ou um mercado em tendência de alta para baixo, no intuito de atrair a massa para o mercado e posicioná-la em posições perdedoras no sentido contrário à tendência, disparando ordens stops e tomando vantagem dos preços para vender caro e comprar barato.

“Um idiota nunca aproveita a oportunidade. Na verdade muitas vezes o idiota é oportunidade que os outros aproveitam.”

Millôr Fernandes

O mercado segue um ciclo que se inicia numa fase acumulação, segue para uma fase de alta, uma fase de distribuição, e por fim, uma fase de queda, para então recomeçar uma nova fase de acumulação.

Após uma fase de distribuição uma contínua queda dos preços gera pânico na massa, que vende suas posições a preços baixos e atrativos para que os investidores institucionais comprem. É partir da daí que se inicia a fase de acumulação.

Após essa fase, uma contínua alta dos preços gera o interesse da massa, que entra comprando a preços altos e atrativos para que os investidores institucionais vendam, momento em que iniciam uma fase de distribuição.

Não existe nada certo na bolsa. Pode existir o provável, o possível, o esperado, mas o certo simplesmente não existe. As massas acreditam no que passar no noticiário dos jornais ou em propagandas. Acreditam nas calúnias mais absurdas e nas promessas mais utópicas.

Assim, as massas são fortemente sugestionáveis, submetendo-se facilmente a qualquer doutrina, técnica, método, moda ou guru. Consideram-se num nível superior não obstante a sua mediocridade e insuficiência, sendo composta em sua maioria por especuladores tolos e pretensiosos, altamente questionáveis, e que como resultado disso na maioria das vezes perdem dinheiro.

Investidores de sucesso se isolam da massa e aprendem a acompanhar e identificar as quatro fases do mercado. Também aprendem a psicologia que guia o mercado e se recusam a serem manipulados por notícias e análises de corretoras.

Quando o mercado abre com gap de baixa e a massa vende por desespero, eles entram comprando. E quando abre com gap de alta e a massa compra por euforia, eles entram vendendo. Seu sucesso está em identificar mudanças entre oferta e demanda, entre o interesse e o desinteresse dos investidores institucionais, entre a força e a fraqueza do mercado nos momentos certos, enquanto ainda há tempo para aproveitar as oportunidades geradas pelo mercado e ganhar dinheiro. 

“Existem duas formas de se aprender algo, pelo amor ou pela dor”.