O Mito do I.P.O.

IPO, do inglês Initial Public Offering, é o nome comumente utilizado para designar a oferta pública primária de ações. Por meio desta oferta, empresas privadas tornam seu capital público, capitando recursos dos investidores para financiar sua expansão futura. Esse tipo de capitação é muito interessante para as empresas, pois possibilita a obtenção de volumosos recursos sem nenhum compromisso ou garantia de  valorização ou restituição do capital dos investidores. Em troca do capital aportado, os investidores recebem ações da companhia, as quais podem remunerar o capital do investidor por meio de dividendos ou mesmo pela sua valorização no mercado.

Em sua  fase inicial, as companhias partícipes de um processo de IPO contratam agentes para formular e conduzir a oferta (geralmente um banco de investimentos), fornecendo prospectos que contém as cláusulas contratuais, datas e informações relevantes sobre a companhia em questão. Posteriormente, os possíveis investidores podem reservar cotas, em geral limitadas, que serão entregues à sua custódia quando o processo for concluído. Nos casos em que a oferta desperta grande interesse é comum que não seja possível atender integralmente as cotas reservadas, sendo entregue apenas um percentual da quantidade anteriormente pretendida. Existe também a possibilidade de não se obter demanda suficiente, caso em que as cotas restantes podem ser redistribuídas ou mantidas em tesouraria.

Vale ressaltar que empresas que já possuem capital aberto também realizam ofertas públicas de novas ações no mercado, seja por motivos de alavancagem financeira ou para novas captações de recursos, ou mesmo, em razão do aumento do capital próprio. Nestes casos se trata de uma oferta secundária.

As IPOs já foram, no passado, consideradas oportunidades ímpares para obtenção de lucros rápidos, seja sob o viés especulativo ou sob a perspectiva de um investimento de longo prazo. Embora anteriormente essa afirmativa pudesse até ser considerada verdadeira, atualmente ela não poderia estar mais distante da realidade. Esse histórico de IPOs bem sucedidas criou um mito que vem sendo derrubado a cada novo ano às custas do prejuízo dos investidores ou especuladores menos informados. É possível atribuir o mito do IPO à muitos fatores, faremos nesse artigo uma análise subjetiva dos mais importantes, estabelecendo uma relação de causalidade que permita ao investidor decidir assertivamente.

“As pessoas costumam acreditar em tudo aquilo que elas não entendem”.

Warren Buffet

O Timing e a Euforia

Costuma-se fazer uma oferta pública em períodos de grande euforia do mercado, permitindo que as empresas captem a maior quantidade de recursos possíveis por suas ações. Durante este período de euforia,  praticamente todas as ações experienciam uma forte valorização, pois o aporte de recursos no mercado é simplesmente brutal. As ações recém lançadas em uma IPO participam desta euforia, e mesmo que seus fundamentos ainda não reflitam claras possibilidades de valorização, seus preços reagem acompanhando o movimento dominante no mercado.

Sendo assim, a valorização não é fruto de uma oportunidade advinda da oferta, mas é produto de um momento de euforia que afeta a maioria dos ativos negociados. A interpretação enganosa desse fenômeno pode trazer prejuízos significativos, pois a fase eufórica do mercado não é eterna. Uma reversão de tendência e uma atmosfera pessimista podem instalar-se instantaneamente, sem nenhum aviso prévio, pressionando os preços da ação recém lançada a níveis muito inferiores ao que fora pago na oferta primária, e os investidores que ingenuamente assumiram posições grandes nesses papéis podem ter que aguardar anos para obter algum lucro, se é que algum dia o obterão.

A Liquidez e a Especulação

Mesmo sob a tutela de bancos de investimento e investidores institucionais de grande porte, normalmente a liquidez das ações recém lançadas é bem inferior à dos papéis mais tradicionais da bolsa. Devido a liquidez relativamente baixa, às poucas informações e às dificuldades relativas à valoração coerente dessas empresas, os papéis que estréiam na bolsa costumam ser alvo de intensa especulação, reforçando o mito.

Eventualmente esses ativos sobem 10% ou mais em seu primeiro dia de negociação, contribuindo para o estigma de “grande oportunidade”, motivando investidores inexperientes a aportarem grandes somas de dinheiro em empresas que pouco ou nada conhecem. Ainda mais comuns são as quedas vertiginosas logo no dia de estréia, em alguns casos atingindo valores 30% inferiores ao valor pago na oferta inicial. Muitos aproveitam esses dias de maior volatilidade para tirar proveito dos movimentos especulativos. Embora seja verdadeiramente possível ganhar, é fundamental um profundo conhecimento da empresa, do processo de IPO, bem como uma estratégia com objetivos claros.

“Dentre as massas é a estupidez e não o bom senso que é aglomerado”.

Gustave Le Bon

O Preço, o Valor e a Verdade

Então quer dizer que as IPOs servem apenas aos interesses das empresas ?
Não. Existe sim a possibilidade de ganhar com IPOs, investindo na empresa, e contemplando um horizonte de longo prazo, mantendo-se a parte dos movimentos especulativos. Uma Oferta Inicial verdadeiramente bem sucedida beneficia ambas as partes, cumprindo seu objetivo inicial. A empresa, após receber os recursos dos investidores, tem condições financeiras de expandir sua operação, crescendo e agregando valor, que eventualmente será refletido no preço das ações, dando retorno efetivo ao investidor. Esse é o caso em que tudo ocorre como planejado e é o tipo de oportunidade que deve ser procurada quando se considera participar de uma IPO.

Para que o investidor consiga diferenciar as oportunidades, mantendo-se afastado dos casos em que a empreitada é destinada ao fracasso desde sua gênese, é necessário que ele torne-se um conhecedor íntimo da empresa que planeja tornar-se sócio. Uma leitura aprofundada do prospecto, bem como uma análise detalhada dos resultados apresentados pela empresa nos últimos anos é o mínimo que deve ser feito antes de sequer considerar a participação na oferta. Ainda que tudo isso seja feito, deve alocar cautelosamente seu capital, pois as informações que são disponibilizadas são preparadas com a intenção única de tornar a empresa atrativa, maximizando o valor obtido por suas ações. O sucesso depende, portanto, não só do crescimento da empresa a partir do capital recebido, mas de um crescimento que supere as expectativas elevadas que são utilizadas para estipular o preço da ação em seu lançamento.

O que fazer então?

Se decidir avaliar uma IPO, não encare isto como uma oportunidade líquida e certa de lucro. Avalie o caso  rigorosamente, sendo até mesmo mais rígido do que seria com outra ação já em negociação. As ações em negociação já foram “testadas” pelo mercado, apresentam um histórico operacional mais sólido e certamente disponibilizam mais informações do que as empresas em fase de lançamento. Por esses motivos, seu cuidado deve ser redobrado com ofertas públicas.

Lembre-se sempre que um vendedor jamais fala mal de seu produto. Aprenda a ler as notas de rodapé em letras pequenas, investigue, dedique-se a fazer escolhas racionais e maduras, consulte fontes alternativas de informação. Por fim, não seja ignorante a ponto de achar que o banco, as corretoras, ou o economista da rádio tem alguma preocupação com o sucesso do seu investimento. Geralmente, é o contrário.

“Eu compro o negócio e não a ação. Um negócio que sei que vou querer manter para o resto da vida”.

Warren Buffett